Mary Jane Seacole: a outra Florence Nightingale

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Mary Seacole
by Albert Charles Challen, oil on panel, 1869


Homenagem à lembrança da heroína enfermeira negra

Hoje, 14 de maio de 2020, é a data de aniversário da morte da enfermeira Mary Jane Seacole, nascida em Kingston, na Jamaica há 139 anos, em 23 de novembro de 1805. Filha de uma negra nativa livre da Jamaica e de um oficial escocês, desde idade tenra teve contato, através de sua mãe, ao atendimento a doentes com práticas alternativas, atuando na assistência durante endemias de cólera e febre amarela em seu país e nações vizinhas, como nas Bahamas, Haiti, Cuba e Panamá, também afetadas por doenças tropicais.  Na juventude, foi enviada a Londres para aprimoramento de seus estudos de Enfermagem. Lá, tornou-se voluntária da comitiva de enfermeiras recrutadas para atendimento aos soldados ingleses, sob o comandado de Florence Nigthingale. Foi recusada por motivos óbvios: era negra. 

Dirigindo-se a Crimeia por meios próprios, Mary Jane Seacole atendeu a soldados feridos na guerra, não apenas ingleses. Era tão admirada pelos  combatentes (que a apelidaram de Mãe Seacole) que estes angariaram recursos para seu sustento,  quando esteve à beira da miséria após a guerra. 

Esquecida pela história, sua autobiografia (Wonderful Adventures of Mrs. Seacole in Many Lands) foi resgatada em um sebo de Londres por uma enfermeira inglesa, em 1973.  Após revelada a sua história, foi reverenciada em seu país com a maior honraria, a Ordem do Mérito Jamaicano, em 1991. Na Inglaterra. Mary Jane foi votada como a maior personalidade negra britânica, em 2004.

Em 2020, que a OMS define como o Ano Internacional da Enfermagem,  a deferência à Mary Jane, representante da mulher negra na enfermagem, nos leva à reflexão de que a invisibilidade da enfermagem é estrutural e perpassa por conduta e preconceito reacionários ao papel da mulher atuando em atividades consideradas de menor importância. 

Assim, reverencio e referencio a data de hoje na figura de Mary Jane Seacole a todas as profissionais negras no mundo, que a história insiste em negligenciar e invisibilizar. E afirmar que,  apesar de todo o avanço tecnológico no século XXI, ainda padecemos de discriminação de gênero, raça e social, que na condição de mulher negra se exacerba por um fenômeno chamado de interseccionalidade. Na enfermagem brasileira, somos maioria em gênero feminino e da raça negra. E está culturalmente sedimentado o papel desempenhado pelas mulheres negras no regime escravagista. Talvez seja o motivo de tanto descaso à enfermagem brasileira que tiveram e têm as suas Mary Janes,  também esquecidas e relegadas à inexistência histórica.   Lutemos hoje para mudar de vez este quadro covarde e desrespeitoso

Parabenizo a todas e todos os profissionais à frente do combate à Covid-19, em especial à Enfermagem, que, por motivos diversos, são tratados como trabalhadores de menor valia. Mas nós sabemos o nosso valor e confiamos que este panorama irá mudar. Já está mudando! 

 

Ana Lúcia Telles Fonseca

Mulher, negra e enfermeira

Atual presidente do Conselho Regional de Enfermagem do Rio de Janeiro

 


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