Diagnóstico precoce da tuberculose ainda é desafio para Saúde

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“Apesar de a tuberculose ser a quarta causa de morte por doenças infecciosas no Brasil e a primeira entre pessoas vivendo com Aids no país, o diagnóstico rápido da doença permanece como um desafio para a saúde.” A observação é da aluna de doutorado em Saúde Pública da Escola Nacional de Saúde Pública (Ensp/Fiocruz) Berenice Gonçalves. A pesquisa desenvolvida por ela aponta que, nas grandes metrópoles como São Paulo e Rio de Janeiro, entre 33% e 42% dos pacientes com tuberculose são notificados com a doença somente durante a internação. Neste contexto, o trabalho busca sugerir novos métodos para a detecção precoce da tuberculose.

“A diversidade de apresentações clínicas dos pacientes com tuberculose pulmonar, a redução na proporção de pacientes com sintomas clínicos evidentes e o aumento nas porcentagens de pacientes com resultados radiológicos atípicos, dificultam a detecção dos casos que buscam atendimento nas unidades hospitalares do sistema de saúde”, explica Berenice Gonçalves.

De acordo com a doutoranda da Ensp, a partir dos anos 90, apesar das poucas indicações para internar pacientes com tuberculose, o diagnóstico intra-hospitalar da doença voltou a crescer entre os pacientes internados em hospitais gerais. “Entre os fatores responsáveis por essa mudança, podemos destacar as comorbidades associadas à doença, que dificultam o diagnóstico da tuberculose pulmonar”, aponta Berenice. O estudo destaca que, em 2013, cerca de nove milhões de pessoas adoeceram por tuberculose no mundo, sendo 1,1 milhão de casos entre pessoas que vivem com HIV.

A pesquisa da doutoranda foi desenvolvida com pacientes internados em Niterói no Hospital Universitário Antônio Pedro da Universidade Federal Fluminense (HUAP-UFF), que não é referência para internação de tuberculose pulmonar. De acordo com ela, em hospitais gerais como o Antônio Pedro, a tuberculose não é o motivo principal da internação, e sim as comorbidades. Na pesquisa, cerca de dois terços dos pacientes internados (66,2%) apresentaram comorbidades como Aids, diabetes, alcoolismo, doença mental ou outras (neoplasias, lúpus eritematoso sistêmico ou sarcoidose).

A partir desses dados, Berenice Gonçalves considera fundamental o estabelecimento de critérios que auxiliem os profissionais em atuação nas enfermarias das diversas especialidades médicas a suspeitar da possibilidade desse diagnóstico precocemente, para com isso agilizar o processo de isolamento respiratório, o diagnóstico e o tratamento específico, a fim de auxiliar o manejo da tuberculose em hospitais não referência para internação desta doença.

Como solução para o diagnóstico da doença, a aluna desenvolveu uma regra de predição clínico-laboratorial (RPC) com base no histórico de pacientes internados no Hospital Universitário da UFF. Essa regra gerou uma pontuação a partir da observação dos sintomas febre (2 pontos), perda de peso (1 ponto), uso abusivo de bebida alcóolica (1 ponto) e resultado de exame de imagem de tórax alterado (1 ponto). De acordo com Berenice, em ambiente hospitalar, pontuações ≥3 pontos, obtidas a partir dessa análise, tiveram maior sensibilidade no rastreamento da tuberculose pulmonar do que o exame direto do escarro isoladamente.

Uma segunda pesquisa para avaliar a confiabilidade das informações obtidas na anamnese de pacientes internados apresentou concordância quase perfeita para todas as variáveis. Segundo a pesquisadora, pode-se concluir que a aplicação de questionários padronizados, com perguntas simples e discriminantes, pode contribuir com o manejo diagnóstico de diversas patologias respiratórias, incluindo a tuberculose pulmonar. “Este instrumento pode ser preenchido por profissionais médicos com vários graus de experiência, treinados para este fim, podendo ser útil na avaliação de pacientes adultos na admissão hospitalar”, afirma Berenice.

Sobre a autora

Berenice das Dores Gonçalves possui graduação em medicina pela Universidade Federal Fluminense (UFF) e mestrado em Saúde Pública pela Escola Nacional de Saúde Pública Sergio Arouca (Ensp/Fiocruz). Sua tese intitulada Acurácia de regra de predição para o diagnóstico de tuberculose pulmonar em ambiente hospitalar contou com a orientação das professoras Sonia Regina Lambert Passos do Instituto Nacional de Infectologia Evandro Chagas (INI/Fiocruz) e Fernanda Carvalho de Queiroz Mello, do Instituto de Doenças do Tórax da UFRJ.

Fonte: Fiocruz

TAGS: Tuberculose

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